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"Não dá para sermos felizes com o que não temos", alerta psicólogo sobre gays que não se aceitam

O personagem Félix de Amor À Vida é um homossexual
casado com mulher e busca satisfação sexual fora do casamento
(Foto: Divulgação/Rede Globo)
O personagem Félix da novela Amor À Vida da Rede Globo conquistou muitos fãs em pouco tempo. É possível ver suas frases irônicas e jargões repetidos em redes sociais e até em rodas de conversas. Félix vive um casamento de mentira com uma mulher, apenas para manter a aparência. No horário de exibição da novela e sempre que aparece na tela, o personagem é um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Tem até páginas dedicadas a ele no Facebook e perfis com o nome do personagem no Twitter.

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Assim como Félix, muitas pessoas estão na mesma condição: casadas, com filhos e, em alguns casos, buscando a satisfação do seu desejo fora do relacionamento. Além disso, e que pode ser considerado ainda pior, vivem uma vida escondida sem muitas vezes nem buscar a realização de suas vontades. Tal situação pode trazer muitos problemas tanto na vida pessoal quanto na profissional. Também podem surgir doenças psicossomáticas, distúrbios físicos causados por fatores psicológicos e derivados de pensamentos, emoções não aceitas ou não simbolizadas, fazendo com que o corpo padeça de algo que a mente não dá conta.

O Sempre Bem conversou sobre este problema com Marcus Vinícius Corrêa, psicólogo da Secretaria Municipal de Educação de Araras, no interior de São Paulo. Ele falou sobre o reflexo dessa condição na vida pessoal e profissional e alerta: "Não dá para sermos felizes com o que não temos".

Sempre Bem: Um homossexual que não se assume e/ou não aceita a própria condição tem a qualidade de vida afetada de que forma?
Marcus Vinícius Corrêa: Vamos pensar que “não assumir” e “não aceitar” são duas coisas completamente diferentes do ponto de vista de qualquer interpretação teórica. Com isso, todo desejo reprimido, - sim, quando falamos sobre sexualidade, estamos falando de desejos -, pode nos adoecer, seja através dos efeitos somáticos (hormonais e imunitários) ou repercussões na mente. Não existe qualidade de vida para quem não se aceita homossexual, bissexual, etc. Só existe qualidade de vida quando nos aceitamos da maneira como somos, seja ela qual for a nossa condição.

SB: Como isso reflete na vida pessoal?
MVC: Toda essa não aceitação reflete na vida pessoal atrapalhando o planejamento futuro, como um namoro, uma troca de afeto e carinho. Muitas pessoas acabam escondendo-se em seus quartos, limitando seus amigos e em alguns casos não possuindo amigos para não ter que falar de sua sexualidade com ninguém. A privação da vida pessoal acarreta sempre em muito sofrimento. Atualmente com os meios sociais digitais as pessoas vêm buscando mais informações e muitas vezes levando essa homossexualidade apenas para o mundo virtual.

SB: E como se dá esse relacionamento no virtual?
MVC: Esse lugar virtual só é acessado com senha, diferente da vida pessoal. No mundo virtual, eu posso ser quem eu quiser, sem ter que me assumir. Amigos, namoros e amores virtuais na questão da homossexualidade vem sendo uma válvula de escape para quem quer reprimir seus sentimentos perante sua sexualidade e sua sociedade.

SB: Qual o reflexo disso na vida profissional?
MVC: A homossexualidade reflete sim na vida profissional das pessoas, tanto das que procuram por empregos quanto dos que contratam. Ouvimos muito por aí aquele estigma que gays são nossos cabeleireiros, bailarinos, maquiadores, estilistas, arquitetos, produtores de moda e tantas outras profissões marcadas por essa grande bobagem. Mas pensemos: não existe advogado gay? Psicólogos, prefeitos, médicos, gerente de grandes empresas? Sim, existe!

SB: Quais exemplos de profissionais?
Deputado Jean Willys é
homossexual assumido
(Foto: Divulgação)
MVC: O deputado Jean Willys (PSol); a apresentadora Ellen DeGeneres; o cantor Ricky Martin; jogador de basquete da NBA Jason Collins, o jornalista da CNN Anderson Cooper; a primeira-ministra da Islândia, Johanna Sigurdardottir. Mas essas profissões são menos vigiadas do que as citadas acima. No caso do reflexo na vida profissional, a própria sociedade insere seu valor, algumas profissões podem ser mais simples de se assumir, outras nem tanto. A sociedade aceita um cabeleireiro homossexual, mas torce o nariz para um médico homossexual.

SB: E como essa discriminação pode prejudicar?
MVC:  Essa discriminação social trava o profissional que não se assumiu no sentido de sair menos com os colegas de trabalho, ter aquela vida mais sigilosa do que os que contam suas aventuras sexuais do final de semana. Rudney Pereira Junior, consultor da empresa Foco, declarou: “Acredito que os homossexuais sofrem tanto preconceito na hora da contratação quanto os deficientes físicos, negros e mulheres. Algumas empresas ainda têm esquemas muito arcaicos de contratação”.

SB: Em alguns casos alguém nesta condição não pode ou não quer se assumir, apesar de aceitar a própria orientação sexual. Tentar driblar isso levando uma vida dupla é aconselhável?
MVC:  Se a pessoa aceita a própria condição é mais fácil ela lidar com o “não assumir”. Muitas vezes não precisamos dizer às pessoas o que somos ou o que não somos, muitas vezes está bem claro, mas nosso medo é tanto da descoberta que fantasiamos que ninguém sabe nada sobre nós.

SB: Quais os riscos neste caso?
MVC: O maior dos riscos da pessoa não se assumir muitas vezes é viver sempre pela metade. Em muitos casos o risco de se assumir é alto, como perder um emprego, mas se aceitar é algo interno como já disse. O mundo mudou e continua mudando e a aceitação hoje é bem maior do que há décadas atrás. A educação é algo fundamental para a diminuição do preconceito, mesmo sabendo que nunca será erradicado, pois faz parte da condição humana. Temos como exemplos os negros que há séculos vem lutando contra isso e ainda existe, e muito.

SB: Voltando um pouco ao exemplo da novela Amor À Vida, Como a não aceitação e/ou o não se assumir interferem na vida de um homossexual que leva um relacionamento estável (até mesmo casamento com filhos) com alguém de outro sexo? 
MVC: A não aceitação vai interferir singularmente na vida de cada uma das pessoas. Terá pessoas que conseguirá manter essa relação com o sexo oposto por quanto tempo for necessário. Outras, já não conseguem manter por assim dizer, ou as vezes nem iniciar uma relação com o sexo oposto. Não dá para medir o sofrimento, quando dói, dói e só nós sabemos disso. A gente não assume tantas coisas e mesmo assim levamos um relacionamento estável com nosso trabalho, amigos, família.

Para viver sempre bem é preciso
aceitar a própria condição
(Foto: Torsten Seiler)
SB: Diante deste cenário, como alguém nesta condição pode ser feliz?
MVC: Não dá para sermos felizes com o que não temos. Se eu não tenho minha própria aceitação eu não tenho qualidade de vida nenhuma perante a minha realidade, pois passo o tempo todo reprimindo toda minha realidade. Aceitar a homossexualidade não é se apresentar nas entrevistas de emprego e dizer: "Olá, Sou Gay!". Pelo contrário, aceitar é algo interno e não externo.

SB: Não se assumir como homossexual ou não se aceitar pode facilitar no desenvolvimento de alguma doença psicossomática ou até mesmo uma doença sexualmente transmissível (DST)?
MVC: Toda sujeira que empurramos para debaixo do tapete, vai chegar um dia que teremos que dar conta dela. Se não lidamos com alguma questão nossa, ela vai precisar de uma válvula de escape e aí que começamos a somatizar. Lembrando que a somatização pode ocorrer de várias formas: como um modo de expressar-se; indicando uma doença orgânica ainda não diagnosticada e também como parte de outras patologias psiquiátricas. Acredito que no caso das DSTs a questão é um pouco diferente, pois se existe uma conscientização por parte da pessoa, sendo ela assumida ou não, a tendência é a informação se manter, independente da sexualidade.

SB: Mas o fato de não se assumir, não se aceitar ou ainda tentar esconder a homossexualidade pode fazer com que alguém nesta condição se envolva e aceite condições que o exponham a riscos envolvendo DSTs, como sexo sem camisinha ou uso de drogas?
MVC: Acredito que o uso de drogas, como bebida alcoólica, lícitas, e outras drogas ilícitas podem sim ser uma porta de entrada na questão da sexualidade reprimida. Podemos utilizar as drogas como uma medida para não termos que acertar as contas com nosso sofrimento real, no caso aqui, a sexualidade. Sobre a questão do sexo sem camisinha, podemos pensar que se a pessoa estiver sob o efeito de alguma droga, sim, pode acontecer de não ser utilizada durante a relação sexual, como em qualquer outro caso, homossexual ou heterossexual. Mas corroboro aqui que sem o uso de drogas, uma pessoa que possui certo entendimento do uso do preservativo, não deixará de usar, seja qual for a relação sexual que exista.

SB: O que pode ser feito sanar o problema da não aceitação?
MVC: Prefiro pensar que sanar o problema é amenizar o sofrimento psíquico que a não aceitação da homossexualidade causa no ser humano. Pontuo a palavra “sanar” devido à aprovação na Comissão “Evangélica” de Direitos Humanos sobre a tal “Cura Gay” que acredito eu, não vem ao caso nesse momento. Falar para não adoecer é um entendimento da psicanálise criada por Freud em seus primórdios de 1882 e muito atual até os dias de hoje. Esse “problema” penso, o sofrimento gerado pela não aceitação, deve ser levado aos espaços psicoterapêuticos. Não existe e não vai existir uma chave de liga e desliga, “Homossexual / Heterossexual” ou uma medicação específica para este caso. Podemos encontrar profissionais de psicologia em convênios, clínicas particulares ou até mesmo em Clínica Escola onde Universidades disponibilizam gratuitamente atendimento com alunos, sempre supervisionados por seus professores.

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